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1 RITMISMO.COM Análise de Estilo - Steve Smith - Por Vlad Rocha No dia 21 de agosto de 1954 nasceu em Whitman, Massachusetts (EUA), um baterista que atingiu o status de ser um dos mais competentes e requisitados do mundo. Steve Smith começou a tocar bateria aos 9 anos de idade, atraído pelo som dos tambores de marching bands. Após terminar o ensino médio, estudou na Berklee College of Music em Boston, entre 1972 e 1976. Começou sua carreira como músico profissional aos 19 anos tocando na Lin Biviano Big Band, e em 1976 gravou o disco Enigmatic Ocean, do violinista Jean Luc Ponty, que contava também com o grande guitarrista Allan Holdsworth, tendo contato assim com o fusion. Em 1977 gravou o disco Focus Con Proby, da banda holandesa Focus, antes de entrar para a banda Journey, com a qual permaneceu durante grande parte de seus primeiros anos de carreira (e para a qual retornou mais recentemente, em 2016). Em 1983 Smith fundou a banda Vital Information, seguindo pelo caminho da mú- sica instrumental. Atuando também como músico de estúdio, Steve gravou com inúmeros artistas renomados, como Bryan Adams, Mariah Carey, Andrea Bocelli, Zucchero, Dweezil Zappa e Lara Fabian, entre outros. No jazz e no fusion, Steve participou da banda Steps Ahead e tocou com músicos como o pianista Tom Coster, Ahmad Jamal, Dave Liebman, Victor Wooten, Mike Stern, Randy Brecker, Scott Henderson, Frank Gambale, Stuart Hamm, Anthony Jackson, Steve Marcus (que tocava na big band de Buddy Rich), Tony MacAlpine, Bill Evans e muitos outros. Participou ainda do projeto Burning For Buddy Vol. I e II (idealizado por Neil Peart), um tributo ao baterista Buddy Rich. Com um currículo de mais de 120 discos gravados, Steve Smith lançou um diversificado material didático, com destaque para os títulos Drumset Technique/Story of the U.S. Beat (2002), The Art Of Playing Brushes (2007) — ao lado de grandes nomes do jazz (Joe Morello, Adam Nussbaum e Charli Persip), Drum Legacy: Standing On The Shoulder Of Giants (2008), junto com John Riley, Roots of Rock Drumming (2013), junto com Daniel Glass e Pathways of Motion (2016). O objetivo desta análise é apresentar alguns grooves e frases de Steve durante diversas fases de sua carreira, mostrando sua versatilidade e fluência em vários estilos como o fusion, o jazz, o pop e até heavy metal com bumbo duplo. Vamos começar pelo início! O disco Enigmatic Ocean (1976), de Jean Luc Ponty, já mostra um Steve cheio de criatividade. Confira o começo da música “Trans-Love Express”, com uma condução em semicolcheias no chimbal. Repare na marcação com os pés. (0:00) Jean Luc Ponty – Enigmatic Ocean – “Trans-Love Express” ESPAÇO (NEM TAO) MODERNO ~

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1 RITMISMO.COM

Análise de Estilo - Steve Smith - Por Vlad Rocha

No dia 21 de agosto de 1954 nasceu em Whitman, Massachusetts (EUA), um baterista que atingiu o status de ser um dos mais competentes e requisitados do mundo. Steve Smith começou a tocar bateria aos 9 anos de idade, atraído pelo som dos tambores de marching bands. Após terminar o ensino médio, estudou na Berklee College of Music em Boston, entre 1972 e 1976. Começou sua carreira como músico profissional aos 19 anos tocando na Lin Biviano Big Band, e em 1976 gravou o disco Enigmatic Ocean, do violinista Jean Luc Ponty, que contavatambém com o grande guitarrista Allan Holdsworth, tendo contato assim com o fusion.

Em 1977 gravou o disco Focus Con Proby, da banda holandesa Focus, antes de entrar para a banda Journey, com a qual permaneceu durante grande parte de seus primeiros anos de carreira (e para a qual retornou mais recentemente, em 2016). Em 1983 Smith fundou a banda Vital Information, seguindo pelo caminho da mú-sica instrumental. Atuando também como músico de estúdio, Steve gravou com inúmeros artistas renomados, como Bryan Adams, Mariah Carey, Andrea Bocelli, Zucchero, Dweezil Zappa e Lara Fabian, entre outros.

No jazz e no fusion, Steve participou da banda Steps Ahead e tocou com músicos como o pianista Tom Coster, Ahmad Jamal, Dave Liebman, Victor Wooten, Mike Stern, Randy Brecker, Scott Henderson, Frank Gambale,Stuart Hamm, Anthony Jackson, Steve Marcus (que tocava na big band de Buddy Rich), Tony MacAlpine, Bill Evans e muitos outros. Participou ainda do projeto Burning For Buddy Vol. I e II (idealizado por Neil Peart), um tributo ao baterista Buddy Rich.

Com um currículo de mais de 120 discos gravados, Steve Smith lançou um diversificado material didático, com destaque para os títulos Drumset Technique/Story of the U.S. Beat (2002), The Art Of Playing Brushes (2007) — ao lado de grandes nomes do jazz (Joe Morello, Adam Nussbaum e Charli Persip), Drum Legacy: Standing On The Shoulder Of Giants (2008), junto com John Riley, Roots of Rock Drumming (2013), junto com Daniel Glass e Pathways of Motion (2016).

O objetivo desta análise é apresentar alguns grooves e frases de Steve durante diversas fases de sua carreira, mostrando sua versatilidade e fluência em vários estilos como o fusion, o jazz, o pop e até heavy metal com bumbo duplo.

Vamos começar pelo início! O disco Enigmatic Ocean (1976), de Jean Luc Ponty, já mostra um Steve cheio de criatividade. Confira o começo da música “Trans-Love Express”, com uma condução em semicolcheias nochimbal. Repare na marcação com os pés. (0:00)

Jean Luc Ponty – Enigmatic Ocean – “Trans-Love Express”

ESPAÇO (NEM TAO) MODERNO~

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A música “Enigmatic Ocean - Part I” possui um belo trabalho de notas fantasmas na caixa. (1:28)

Jean Luc Ponty – Enigmatic Ocean – “Enigmatic Ocean – Part I”

Em “Enigmatic Ocean - Part II”, mais recheio de fantasmas na caixa, porém com uma manulação diferente logo após uma virada usando três toms e o surdo. (0:00)

Jean Luc Ponty – Enigmatic Ocean – “Enigmatic Ocean – Part II”

E na “Enigmatic Ocean – Part III”, ainda mais notas fantasmas (sempre funciona!). (0:00)

Jean Luc Ponty – Enigmatic Ocean – “Enigmatic Ocean – Part III”

O primeiro disco que Steve gravou com a banda Journey foi o Evolution, de 1979 (Steve entrou na banda para substituir Aynsley Dunbar). A música “Lovin’ You is Easy” conta com toques na cúpula do ride que dão toda uma movimentação ao groove. (0:00)

Journey – Evolution – “Lovin’ You is Easy”

Agora uma variação do groove, com condução no chimbal. (0:11)

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Departure (1980) foi o segundo disco do Journey com Steve Smith. A música “Homemade Love” conta com um groove suingado usando semicolcheias tercinadas. (0:00)

Journey – Departure – “Homemade Love”

Do mesmo disco, “Stay Awhile” é em 6 por 8. Confira onde Smith posiciona o toque de chimbal com o pé. (0:00)

Journey – Departure – “Stay Awhile”

Em 1980 a banda gravou a trilha sonora do filme japonês Dream After Dream. No ano seguinte, o disco Escape foi um dos maiores sucessos do Journey, contando com o grande sucesso do grupo, “Don’t Stop Believin’”.Uma curiosidade sobre este disco é que ele inspirou um jogo do videogame Atari 2600 chamado Journey Escape. A seguir, a levada com condução com a mão esquerda no chimbal e variações nos toms e surdo de “Don’t Stop Believin’”. (1:21)

Journey – Escape – “Don’t Stop Believin’”

Aos 1:54 Steve inclui toques de cúpula no ride, mostrando que existe beleza na simplicidade.

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A música “Keep On Runnin’” é em 4 por 4, mas devido ao deslocamento na caixa (no “e” do 1 que aparece no terceiro compasso do exemplo a seguir), ela dá uma impressão de compasso quebrado. (0:11)

Journey – Escape – “Keep On Runnin’”

A música “After The Fall”, presente no disco Frontiers de 1983 conta com um groove com condução em col-cheias e semicolcheias no chimbal e muitas notas fantasmas na caixa (0:12)

Journey - Frontiers – “After The Fall”

Em 1986, antes de Smith deixar o Journey para se dedicar a outros projetos, o disco Raised On Radio foi lan-çado. Steve gravou apenas três faixas no disco (os outros bateristas que participaram da gravação foramLarrie Londin e Mike Baird). Em “Why Can’t This Night Go On Forever” Steve mostra “com quantos paus se faz uma virada em uma balada”. (2:23)

Journey – Raised On Radio – “Why Can’t This Night Go On Forever’”

Steve Smith voltou para o Journey posteriormente, no início da década de 1990, e depois foi substituído por Deen Castronovo. Em 1996, o disco Trial By Fire foi o último do grupo que contou com Steve Smith. O percus-sionista brasileiro Paulinho da Costa participou da gravação do álbum.

Voltando para o fusion, retornemos agora ao ano de 1983, quando Smith fundou o Vital Information. O pri-meiro disco do grupo contou inclusive com o guitarrista Mike Stern e levava o nome da banda. A faixa“Vital Information” começa com uma rápida condução de jazz no ride, com interessantes variações. (0:00)

Vital Information – Vital Information – “Vital Information”

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O disco Orion, de 1984, possui a faixa “The Adventures of Hector and Jose”, que conta com uma levada de sal-sa. (0:00)

Vital Information – Orion – “The Adventures of Hector and Jose”

Em 1987 foi lançado Global Beat. Destaquei a faixa “Johnny Cat”, em que Smith mostra suas habilidades no reggae. (0:09)

Vital Information – Global Beat – “Johnny Cat”

O disco Fiafiaga (Celebration), de 1988, é o primeiro do grupo com o guitarrista Frank Gambale (da Elektric Band de Chick Corea). Selecionei o trecho inicial da música “The Perfect Date”, com uma rápida frase dechimbal, tom e caixa que leva a um groove com toques deslocados no chimbal. (0:00)

Vital Information – Fiafiaga (Celebration) – “The Perfect Date”

Pulando para o ano de 2004, o disco Come On In traz a música “Time Tunnel”, que mostra um belo exemplo de como Smith lida com as conduções de jazz. Repare como os toques de chimbal com o pé fazem parte do “comping”. (0:00)

Vital Information – Come On In – “Time Tunnel”

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Agora vamos retornar ao ano de 1989, quando Steve gravou o primeiro álbum solo do guitarrista Richie Kotzen (que depois entraria para a banda Mr. Big). O disco, que foi chamado pelo próprio nome do guitarris-ta, mostra um Smith versátil e que sabe usar bem o bumbo duplo. A faixa “Strut It” demonstra isso. Confira o quarto compasso do exemplo a seguir. (0:30)

Richie Kotzen – Richie Kotzen – “Strut It”

Do mesmo disco, a faixa “Unsafe At Any Speed” mostra mais um belo exemplo de como Smith aborda o jazz, ago-ra com uma condução mais rápida. E em seguida uma virada matadora! (0:00)

Richie Kotzen – Richie Kotzen – “Unsafe At Any Speed”

Outro supertime que Smith reuniu foi com a banda Vital Tech Tones. O nome explica a origem dos membros. Na bateria, Steve Smith, do Vital Information. Na guitarra, Scott Henderson, do Tribal Tech e no contrabaixo,Victor Wooten, do Béla Fleck and the Flecktones. Do disco de 1998 intitulado Vital Tech Tones, selecionei a entrada da música “Everglades”. Repare como as fórmulas de compasso se alternam do 6 por 4 para o 7 por4, depois voltando ao 6 e seguindo para um 8 por 4 (ou dois compassos de 4 por 4, como preferir). (0:00)

Scott Henderson/Steve Smith/Victor Wooten - Vital Tech Tones – “Everglades”

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Vamos retomar o metal, agora no ano de 2001. O disco Chromaticity, do guitarrista Tony MacAlpine, contou com Steve não apenas na bateria, mas também fazendo a coprodução. Selecionei um trecho com intenso traba-lho de bumbo duplo, na música “Avenger”. (1:50)

Tony MacAlpine – Chromaticity – “Avenger”

Para finalizar, gostaria de destacar três músicas do GHS3, resultado de mais uma das superparcerias de Steve Smith — G de Gambale (Frank, guitarra), H de Hamm (Stuart, contrabaixo) e S de Smith (ou Steve, vai sa-ber). O disco foi chamado de GHS 3 (o trio já havia lançado outro disco em 1998, Show Me What You Can Do). O primeiro trecho que quero destacar é o da música “Confuse-A-Blues”, com alternância de compassos em 4, 7e 5. (0:41).

Frank Gambale/Stu Hamm/Steve Smith – GHS3 – “Confuse-A-Blues”

“Culture Clash” mostra como Smith pode surpreender com frases rápidas. (1:58)

Frank Gambale/Stu Hamm/Steve Smith – GHS3 – “Culture Clash”

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“Geo 100” apresenta mais um exemplo de groove suingado, com uma complexa frase de caixa em sua abertura. (0:00)

Frank Gambale/Stu Hamm/Steve Smith – GHS3 – “Geo 100”